Era
uma vez um grande surfista, um grande campeão do esporte, que na penúltima
etapa do ano já estava com uma mão e meia no caneco e com o seu 3º título
praticamente na conta. Vinha surfando tão mais que seus
adversários, que não havia dúvidas no ar. Ninguém podia pará-lo. Ninguém sabia
como pará-lo. Já ia rumo a sua 4ª quartas-de-final consecutiva, em Portugal,
quando caiu em sua armadilha favorita, a soberba. Ignorou o juiz de prioridade,
remou na onda que os juízes disseram que não era dele e acabou sofrendo uma
interferência que o tirou do campeonato. Justamente no momento em que todos os
seus concorrentes ao título avançavam para as quartas de final. Um erro bobo e
desnecessário, pois o campeão já tinha a vitória em mãos ou um erro
grotesco do julgamento?
O juiz de prioridade pode ter errado? Claro que
sim. Aliás, muita gente afirma que sim. Sabemos que juízes erram e na WSL eles
erram bastante e que nunca consertam seus erros. Um competidor pode ignorar o
juiz de prioridade? Claro que não.
Todos
nós sabemos que Gabriel Medina adora essas disputas arriscadas, que podem
resultar em interferência. O que eu não imaginava é que tão próximo de um
terceiro título, ele fosse fazer isso de novo. Mas ele fez. E por mais que os
fãs do Gabriel gritem e esperneiem, foi um vacilo dos grandes. Quem quer ser
campeão não pode ficar "achando" que tem a prioridade. É preciso ter
certeza. E entre uma onda e outra os dois surfistas tiveram tempo de sobra para
olhar o placar da prioridade e ter essa certeza. Passar por cima do julgamento foi um erro bobo principalmente porque
foi desnecessário, a bateria estava ganha. Ao ignorar a prioridade, Medina deu,
de presente, o que a WSL tanto queria: uma final em pipe disputadíssima.
No
instagram Medina postou um vídeo afirmando que a prioridade era dele e uma
avalanche de fãs e de haters fizeram as redes sociais ferverem a tal ponto que
até o Caio Ibelli e sua família foram ameaçados, difamados e praguejados. Ondas ruins na europa. Ondas de
imbecilidade por aqui.
Como
a popularidade do Gabriel é enorme (o brasileiro tem mais seguidores do que a
WSL, o John John Florence e o Kelly Slater somados), ele certamente colocou uma
pressão na WSL, mas será que foi inteligente ou político da parte dele postar
esse vídeo? Ao querer dar uma de “Juiz de redes sociais” o Medina não corre o
risco de criar uma birra com os juízes? Posso estar errado, mas pessoas que
reclamam não são lá muito bem vistas pela WSL.
Tanto
Caio quando Medina tinham certeza de suas prioridades. O Caio porque viu no
palanque e o Medina porque tinha a certeza de ter chegado antes no pico. Claro que o Medina
não podia ter feito o que fez ao ignorar a prioridade, foi um erro bobo do Gabriel passar por cima do juiz de prioridade, mas se teve um lado que
errou bastante nessa história toda foi a própria WSL, essa empresa que
normalmente não explica, não comenta e não esclarece nada; Pode ter havido um
erro do juiz de arbitragem, essa é uma das possibilidades mais prováveis (a WSL
nega); houve um erro do Strider ao declarar publicamente, antes do
pronunciamento oficial, que a bateria deveria voltar para a água; e o
tradicional silêncio da fechada WSL durou tempo demais, deixando a internet
explodir em comentários violentos e desnecessários. São muitos os erros. Por
ação e por não-ação.
As
vezes tenho a impressão de que nessa ânsia da WSL em buscar o grande público ignora
completamente o público core, uma
estupidez tremenda. Basta dar uma olhada na audiência dos eventos da WSL no
facebook para ver que nem o público core
nem o grande público estão assistindo. Provavelmente porque tem sido difícil
acreditar na WSL. Provavelmente porque alguns resultados, dramas e intrigas
parecem mais artificiais demais. Provavelmente porque alguns resultados, dramas
e intrigas são carinhosamente escondidos ou maquiados. Fica aqui a impressão de
que hoje o surf é um esporte muito maior e muito menos respeitado.
Independente
do resultado em Portugal nosso campeão cabeça-dura surfa Pipe como um gênio e
continua sendo o franco favorito ao título. Sorte dele, porque erros assim
seguidos normalmente custam um caneco.
Aguardemos
as finais do evento. A etapa de Portugal não tem mais chances de coroar um
campeão mundial antecipado, mas definitivamente adicionou pimenta, sal, alecrim
e um bom azeite português nesse molho de Pipe. Filipe Toledo pode sair de
Supertubos como líder do ranking e todos os concorrentes ao título estarão
embolados em Pipe. A disputa do título vai até a última onda.
Solidariedade
a família Ibelli e parabéns aos surfistas que tiveram a dignidade de
falar em defesa do Caio. As vezes a nobreza aparece mais nas belas atitudes do
que no título em si.
A
propósito, depois do tubarão em J-Bay a interferência do Medina não foi um dos maiores momentos da audiência da WSL?
Oito das 11 etapas do circuito já ficaram para trás. Ítalo Ferreira venceu na Gold Coast; John John em Bells; Kanoa Igarashi em Keramas; John Florence em Margaret River; Filipe Toledo em Saquarema; Gabriel Medina em J-Bay, Owen Wright em Teahupo’o e Gabriel Medina novamente em Lemoore. Com seis vencedores diferentes, essa corrida pelo título de 2019 promete ser acirrada até a última onda, mas não duvidem que o Gabriel Medina possa resolver essa antes mesmo de chegar no Hawaii.
Depois de assistir duas etapas em ondas poderosas, desafiadoras e selvagens (J-Bay e Teahupo’o), assistimos um campeonato em um tanque de ondas artificiais. Para uns foi o clímax e o anticlímax do circuito, para outros uma novidade interessantíssima de se assistir. Uns pedem o fim da etapa, outros querem ver mais piscinas no tour. Os dois primeiros dias de competição deixaram bem claro que o evento é tedioso. O último dia deixou claro que o campeonato não é tedioso ou lá tão previsível. Se a etapa continua no tour? Existem rumores, teorias e apostas.
Gabriel Medina, Campeão do Surf Ranch Pro 2018 e vice-líder do ranking. Foto WSL/Cestari
Por: Dadá Souza
O brasileiro Gabriel Medina e a havaiana Carissa Moore foram os grandes campeões do Surf Ranch Pro 2018, a 8ª etapa do circuito mundial da WSL. Essa foi a segunda vitória consecutiva de Gabriel Medina esse ano e a sétima vitória do Brasil em 8 eventos disputados. Depois de 8 etapas, o circuito mundial segue completamente dominado pelos brasileiros. Gabriel Medina venceu 2 etapas, Filipe Toledo venceu 2 etapas, Italo Ferreira venceu duas etapas e Willian Cardoso venceu uma. Os brasileiros só não tiveram a chance de vencer a primeira etapa porque Tomas Hermes foi prejudicado no julgamento. Filipe Toledo é mais líder do que nunca e segue reto e direto para seu objetivo de vencer o título. Gabriel Medina segue na sua cola com um ritmo inpressionante e um retrospecto pra lá de excelente nessas últimas 3 etapas que restam. Essa briga vai ser muito boa e só um milagre tira esse título do Brasil. Julian Wilson continua na terceira posição do ranking, mas verdade seja dita, apesar de Julian ser um surfista talentoso e muito acima da média (inclusive na elite), tem bastante gente surfando melhor do que ele esse ano.
O Surf Ranch Pro
foi um passo inédito na história do surf mundial. Já havíamos visto campeonatos
em piscinas a muito tempo atrás, mas essa foi a primeira vez que uma etapa do
circuito mundial da WSL aconteceu em uma onda artificial de alta performance e
com um novo formato de competição. Uma mudança e tanto no sempre tão
conservador circuito mundial de surf. Muita gente gostou e muita gente não
gostou, o fato é que o evento rodou redondinho (tirando aquele episódio de
mandarem repetir as ondas) e teve um saldo mais positivo do que negativo.
Ninguém pode reclamar que não teve onda. Muita gente
comentou que gostaria de ver sessões com mais personalidade nessa onda do
Kelly, mas não só as ondas estavam lá como tinham hora exata para quebrar e
sessões de tubo e de manobra. Todo mundo surfou na mesma condição e as ondas
eram rápidas, perfeitas e, de certa forma, desafiadoras. Não teve quem não
queimou as pernas tentando vencer a locomotiva.
A WSL também entrou para a história ao decretar que homens e mulheres receberão a mesma premiação em dinheiro. Em um
esporte tradicionalmente comandado e administrado por homens, surpreendeu o
reconhecimento da igualdade. Justíssimo, até porque nessa mesma piscina de ondas
algumas mulheres definitivamente surfaram melhor que alguns homens. Ponto para
a WSL.
Depois de dois dias de apresentações, os finalistas foram Gabriel
Medina, Julian Wilson, Filipe Toledo, Owen Wright, Kanoa Igarashi, Miguel Pupo,
Sebastian Zietz e Kelly Slater. Julian e Kelly chegaram às finais deixando
muita gente desconfiada do julgamento e da lesão de Slater, que ninguém sabe se
ainda existe, já que ele vem surfando e competindo quando quer.
PRIMEIRA RODADA
Sebastian Zietz (HAW), Miguel Pupo (BRA), Kelly Slater (USA) e Owen Wright (AUS)
surfaram com dificuldade e acabaram cometendo erros fatais em suas primeiras ondas. Filipe Toledo (BRA) foi o primeiro a surfar bem, fez uma boa
esquerda de 13 manobras e caiu antes de chegar no tubo. Na direita Filipinho
fez 4 manobras, surfou um tubo de 11 segundos, fez 3 manobras fortes, pegou um
tubo profundo e deu um aéreo rodando no final da onda e marcou 8.33. Foi o primeiro a finalizar a
direita sem erros. Kanoa Igarashi (JAP)
não fez uma boa esquerda e caiu na metade do percurso. Na direita ele surfou
muito bem mas caiu no aéreo de finalização e marcou 8.17. Kanoa ganhou uma
nota excelente em uma onda incompleta, coisa que até então não tinha acontecido.Julian Wilson (AUS) fez uma sequencia
de 13 manobras meio burocráticas e errou o aéreo no final e marcou 5.73. Na
direita Julian caiu no primeiro tubo sem mostrar nada demais. Gabriel Medina (BRA) errou logo no
começo da sua primeira esquerda. Na direita Medina fez 3 manobras, pegou um excelente
tubo de qw segundos, fez uma sequencia de manobras fortes, entubou no inside e
deu um aéreo rodando no final e marcou 8.73. A primeira rodada terminou com
Filipe em 1º, Kanoa em 2º, Gabriel Medina em 3º e Kelly Slater em 4º. Entre as
meninas Carissa Moore fez incríveis 8.33
e 9.00 e saiu na frente, com Lakey Peterson ficou em 2º, Caroline Marks em 3º e
Stephanie Gilmore em 4º.
SEGUNDA RODADA
Sebastian Zietz
surfou a esquerda de um jeito meio burocrático e caiu na metade do percurso. Na
direita Seabass fez sua primeira boa onda, só caiu na finalização e marcou 7.90.
Passou de 8º para 2º. Miguel Pupo
surfou uma ótima esquerda, destruiu sua onda, levantou a torcida e marcou 8.13.
Na direita Miguelito errou no primeiro tubo e não fez uma boa onda. Kelly Slater errou logo no início da
esquerda. Na direita Kelly surfou como nos velhos tempos e fez 8.60. Com essa
onda Slater passou de 4º para 2º. Owen
Wright surfou uma ótima esquerda, só errou a manobra de finalização e
marcou 7.43. Trocou a nota. Na direita Owen foi mais burocrático e acabou
caindo dentro do primeiro tubo. Filipe
Toledo tinha que trocar 6.83 na sua esquerda. Surfou agressivo, rápido, mas
não saiu do tubo e marcou 6.20. Na direita Filipe foi monstruoso e surfou a melhor
onda de todo o campeonato, deveria ter ganhado uma nota 10 unânime e marcou 9.80.
Pouco mais de um ponto de diferença entre as
ondas do Kelly e do Filipe foi algo tão feio que expôs os juízes ao ridiculo.Kanoa Igarashi caiu na esquerda e fez uma boa direita, mas não
trocou suas notas. Julian Wilson
surfou burocrático demais na sua esquerda, alisou demais telegrafando o aéreo
do final, e caiu na manobra de finalização. Na direita Julian até fez uma boa
onda, mas caiu na finalização. O vice-lider do ranking foi para a última
colocação. Gabriel Medina precisava
fazer uma boa esquerda, surfou um pouco mais seguro, finalizou com um aéreo kerrupt
no final da onda e marcou 8.53. Na direita surfou com muita potência, entubou
fundo e com muita técnica, mas caiu na última manobra. Medina finalizou a segunda rodada na 1ª
colocação, com Filipe Toledo em 2º, Kelly Slater em 3º e Sebastian Zietz em 4º.
Entre as meninas Carissa Moore melhorou
suas notas e disparou na liderança. As demais posições não se alteraram.
Depois disso alguém falou que as ondas não foram iguais para
todos e que os e as surfistas teriam o
direito de surfar novamente para a esquerda. Problemas com o vento? Com o fluxo
de agua? Com o operador da maquina? Para variar ninguém falou nada. Quem se
beneficiou com a onda extra foi Kanoa Igarashi, que de 5º passou para 3º, rebaixando
Kelly e Sebastian Zietz, e Gabriel Medina, que já estava em 1º e melhorou sua
nota na esquerda ampliando a sua vantagem.
TERCEIRA RODADA
Sebastian Zietz bem
que lutou para tentar surfar bem, mas simplesmente não conseguiu. De qualquer
maneira fez sua melhor nota na esquerda na competição: 7.17 e finalizou a etapa
na 7ªcolocação.
Miguel Pupo tinha 8.13 na esquerda,
surfou uma boa onda, mas errou na finalização e não melhorou sua nota. Na
direita Miguel Pupo tinha 4.83, uma nota fácil de trocar, mas caiu no primeiro
tubo e não conseguiu trocar sua nota e terminou o evento na 8ª colocação. Kelly
Slater surfou uma ótima esquerda, sua melhor esquerda no evento. Kelly
precisava de 9.13 para superar a onda de Medina, mas marcou 7.67. Na direita
Kelly não foi bem e terminou a etapa na 3ª colocação, seu melhor resultado no
ano. Owen Wright, que vinha sendo um
dos melhores surfistas da competição nos primeiros dias, muito pouco mostrou
nas finais. Na esquerda Owen caiu logo no início da onda e na direita fez uma
onda boa mas um tanto conservadora e ganhou 7.97 pontos e terminou o evento na
5ª colocação. Filipe Toledo precisava
melhorar um 6.83 na esquerda, surfou bem e com muita pressão, mas caiu no aéreo
de finalização. Marcou 7.23. Na direita Filipe não conseguiu melhorar sua onda.
Filipe terminou o evento na 2ª colocação e continua na liderança do ranking. Kanoa Igarashi surfou mal na esquerda,
surfou mal na direita e não conseguiu melhorar sua posição e terminou o evento na
4ª colocação. Julian Wilson que não
fez nenhuma boa apresentação nas finais, foi para a esquerda precisando
melhorar um 6,57, não conseguiu e com isso o título da etapa foi para o
brasileiro Gabriel Medina, que se consagrou Campeão do Surf Ranch Pro.
Entre as meninas Carissa Moore fez uma campanha espetacular no Surf Ranch e
foi a grande campeã do evento surfando com grande competência. Stephanie
Gilmore surfou uma excelente direita, fez 8.87 e ficou na 2ª colocação. Lakey
Peterson ficou em 3ª e Caroline Marks (USA) na 4ª colocação.
Filipe Toledo, vice-campeão do Surf Ranch Pro 2018 e líder do ranking. Foto WSL/Cestari
OS PONTOS FRACOS DO EVENTO
Como ainda estamos vendo os primeiros eventos em piscinas com onda, muita coisa ainda precisa melhorar, por isso listamos aqui as principais reclamações do público sobre o evento.
Uma das coisas que a galera na web mais reclamou é que na piscina não tem aquela emoção da entrada da série, não
tem disputa de onda, nem briga pela prioridade, nem se testa o posicionamento
dos surfistas. Tudo é muito mecânico, muito igual, muito perfeitinho, mas sem sal e, principalmente, sem pimenta. Talvez ainda precisemos nos acostumar com o surf fora da sua natureza.
Um dos maiores problemas desse evento, segundo os competidores,
é que simplesmente não dava para treinar, nem fazer aquele surf matinal de aquecimento, muito menos testar quilhas ou pranchas. Sem poder treinar antes da competição, só
conseguiu entrar em sintonia com as ondas quem já tinha experiência na piscina.
Isso na oitava etapa do tour, com tanta gente precisando desesperadamente de
pontos para se classificar para o ano que vem.
Muita gente ficou mal da cabeça. Se a gente
levar em consideração que o Kelly já fechou Fiji antes de uma etapa para que
ninguém mais pudesse treinar, não é surpresa ele fazer isso em sua própria
piscina.
As ondas também deixaram muita gente confusa. Apesar de
serem todas iguais, definitivamente não eram todas iguais. Algumas eram maiores
e algumas menores. Não se sabe se foi por causa do vento, do fluxo de água ou se
era coisa de quem operava a máquina. Ainda sobre as ondas, a piscina aparentemente
seguiu a mesma regra do restante do circuito e valorizou bem mais as direitas.
Impossível não admitir que as direitas da piscina são muito melhores do que as
esquerdas.
As ondas perfeitas do Surf Ranch devem ser ótimas para se
surfar. Ninguém duvida disso. Mas para quem assistiu o evento foi um pouco
monótono. Ondas sempre iguais, muita propaganda e muito pouca emoção. Faltou
colocarem as notas na tela e faltou de vez em quando repetirem as melhores
ondas para que todo mundo pudesse comparar melhor as ondas e as notas. Não se
sabe se foi esquecimento ou se foi proposital, afinal o surf tem um público apaixonado, que analisa criticamente o julgamento da WSL na web e isso tem desagradado o "dono" da WSL.
As ondas do Surf Ranch também receberam críticas. São
lindas, perfeitas e velozes. Por outro lado, são ondas leves, rápidas demais,
burocráticas demais e que nem sempre proporcionam grandes manobras. Raros foram
os surfistas que conseguiram inverter o bico da prancha em suas rasgadas. Definitivamente
surfar bem nessas ondas não para qualquer um. A diferença entre os melhores do
tour para os coadjuvantes, que já é enorme, se acentuou bastante.
Surfar na onda artificial do Surf Ranch é muito diferente do
que surfar no oceano. Na piscina você sabe que vai surfar, sabe que a onda vai
entrar e precisa e que você precisa planejar muito bem a linha de surf para
aproveitar as muito bem definidas sessões de cada onda. Alguns não entenderam
isso.
No meio de um circuito mundial da WSL essa etapa pareceu meio perdida. Outro formato, outro tipo de onda, outras regras.... Mas definitivamente
é uma ideia que pode ser adotada com sucesso pelos jogos olímpicos e uma ótima oportunidade para se criar um circuito paralelo.
O JULGAMENTO
Com ondas tão iguais, o julgamento perde muito da subjetividade
(pelo menos deveria) e a performance dos atletas é o que faz a diferença. Sem
precisar se preocupar com as ondas, os juízes teoricamente podem prestar mais
atenção nos detalhes e descontar todos os erros cometidos, tal qual acontece na
ginástica olímpica. Mas a verdade é que uma dúvida ficou no ar: será que podemos
dizer que os juízes da WSL estão acompanhando a evolução do surf? Compara aí o 9.80 do Filipe Toledo com as notas mais altas de seus adversários e isso fica claro como o sol.
O julgamento, que já vinha sendo o Calcanhar de Aquiles da
WSL desde os tempos da ASP, continua colocando em cheque a credibilidade do
circuito para muita gente. Não são poucos os confrontos que tem seu resultado
questionado e cercados de polêmica. No Surf Ranch Pro, com ondas aparentemente
iguais para todos, o julgamento mostrou a mesma inconsistência das outras
etapas e muitos resultados foram questionados e ridicularizados na internet. Nem os atletas, nem os jornalistas, nem o público está entendendo.
A próxima etapa acontece de 03 a 14 de outubro na França.
Confira aqui como ficou o ranking atualizado após 8 etapas:
O brasileiro Filipe Toledo venceu hoje, pela segunda vez
consecutiva, o clássico evento de Jeffrey´s Bay, a mítica onda da África do
Sul. Filipinho venceu seu segundo evento em 2018, mostrou que está surfando bem mais do que um nível acima e assumiu a liderança do
circuito mundial.
Não se trata de torcida ou ufanismo. Filipe Toledo fez um evento perfeito em J-Bay. Uma campanha
irretocável e arrasadora. No Round 1 Filipinho venceu Matt Wilko e Wiggolly Dantas sem
dificuldade comando 13.84; no Round 3 derrotou Yago Dora somando 16.60; no Round 4 venceu
Sebastian Zietz e Adriano de Souza com a somatória de 17.23; no Round 5 eliminou
Gabriel Medina somando 17.50; na semifinal atropelou Kanoa Igarashi somando
18.90 pontos; e na final derrotou o australiano Wade Carmichael por 16.80 a
15.33. Um total de 100,87 pontos e uma certeza: ninguém nunca surfou como Filipe Toledo em Jeffrey´s Bay. Ninguém.
Wade Carmichael também foi um grande surfista em J-Bay. Seu surfe foi sempre muito potente e agressivo e não deixou dúvidas em suas apresentações. Wade apareceu no circuito com seu jeito quietão, sem equipe, família ou purpurinas. Já fez duas finais em 2018 e é o atual top 6 do ranking. Provavelmente será o Rookie of the Year esse ano. Power surfe sem firulas.
A troca de guarda no circuito mundial é mais do que evidente. Antes algumas ondas separavam os homens dos meninos. Hoje os meninos cresceram e estão lanchando seus ídolos no café da manhã. Filipe Toledo sem dúvida alguma ditando um novo ritmo para as ondas de J-Bay. Sua segunda vitória na "Baía do Jeferson" também nos revela um segredinho dessa onda: poucos a dominam. De 2000 pra cá Mick Fanning venceu ali por 5 vezes, Kelly Slater
venceu 4, Joel Parkinson, Jordy Smith e Jake Paterson venceram 2 vezes em J-Bay. Fora isso vitórias ocasionais de Taj, Andy e Mineiro (no QS). Em 17 anos somente oito surfistas venceram ali.
O Corona Open J-Bay foi a 6ª das 11 etapas do circuito
mundial. Um campeonato tão especial que é difícil acreditar que um dia alguém
resolveu tirar essa etapa do tour.Ondas
desafiadoras, local selvagem, ondas alucinantes, surf de alta performance para
tubos, manobras. Sem falar nos tubarões brancos que sempre aparecem para
conferir as baterias de perto. Para quem está no Brasil não é um evento fácil de acompanhar, mas foi a etapa do ano até agora.
Vale lembrar que essa foi a 5ª vitória brasileira em 6 etapas realizadas e que o Brasil está liderando o CT com o Filipe Toledo e o QS com o Peterson Crisanto. O Brasil hoje tem a maioria dos competidores do Championship Tour e caminha reto e direto para seu terceiro título mundial.
QUARTAS DE FINAL
Conner Coffin
(USA) e Wade Carmichael (AUS)
abriram as quartas com uma bateria morna que só esquentou com a presença de um
tubarão branco no lineup. Wade surfou melhor, fez duas notas na casa dos 6 pontos
e venceu a disputa por 12.87 a 10.40. Essa bateria está disponível aqui.
Julian Wilson
(AUS) e Jordy Smith (ZAF) fizeram um
grande confronto. O líder do ranking contra o talentoso sul-africano. Um duelo
acirrado onde quem ganhou foi o público. Jordy Smith escolheu melhor suas
ondas, surfou um pouco melhor e venceu a disputa por 13.43 a 12.96. A galera na
praia fez muito barulho e o líder do ranking foi eliminado da competição. Essa bateria está disponível aqui.
Filipe Toledo
(BRA) e Gabriel Medina (BRA) fizeram
o confronto brasileiro das quartas. Filipe saiu na frente e dominou a bateria somando 8.17 e 7.93. Medina entrou na bateria já na metade do
confronto com uma onda de 7 manobras que lhe rendeu 9.10 pontos. Faltando 2
minutos para o fim da bateria, Medina precisava de 7 pontos, pegou uma boa onda
de 6 manobras mas não conseguiu virar o resultado . Filipe Toledo venceu por
16.10 a 15.60.
Kanoa Igarashi
(JPN) e Sebastian Zietz (HAW) fecharam
as quartas com confronto dominado pelo Kanoa Igarashi que escolheu as melhores
ondas e surfou sem erros. Essa bateria está disponível aqui.
SEMIFINAL
Wade Carmichael (AUS) e
Jordy Smith (ZAF). A briga do novato no
tour contra o bicampeão do evento começou com poucas ondas surfadas. Jordy
começou surfando melhor, Wade Carmichael virou a bateria depois da metade do
confronto com uma boa onda. Faltando pouco mais de 7 minutos Jordy surfou uma
excelente onda e marcou 6.23 e não gostou da nota. Faltando menos de 4 minutos Wade
Carmichael estava tranquilo com a prioridade nas mãos. Jordy pegou uma última onda,
começou bem, mas arriscou tudo em um aéreo superman, caiu e perdeu a chance de
ir para final.
Filipe Toledo (BRA) e Kanoa Igarashi (JPN) Filipinho e Kanoa
é sempre certeza de rivalidade. Aquela interferencia ficou atravessada na garganta de Filipinho. Uma interferência que tem custado bem caro para o japonês até hoje. Kanoa não começou mal. O "problema" foi que o Filipe Toledo
começou surfando muito forte, muito rápido e emplacou duas notas sólidas rapidinho 9.57 e
9.33. Kanoa Igarashi ficou em combinação de ondas e nada pode fazer contra o brasileiro.
FINAL
Filipe Toledo (BRA) x Wade Carmichael (AUS) fizeram a grande final do Corona Open J-Bay com méritos. Durante todo o evento foram dois surfistas que se encaixaram muito bem nas ondas de Jeffrey´s Bay e que jogaram
muita água pra cima. Filipe, surfando muito rápido abriu a bateria com uma nota
8.50. Wade, surfando muito forte, abriu com uma nota 8. Poucas ondas estavam entrando e faltando
poucos minutos para o final da bateria Filipe Toledo pegou uma ótima onda,
marcou 8.30 e aumentou sua liderança. Filipe bicampeão em JBay surfando de
forma sempre avassaladora
“Eu sempre sonhei em conseguir duas vitórias seguidas no mesmo evento e não poderia ser mais especial isso acontecer aqui em J-Bay”, disse Filipe Toledo. “No ano passado deu altas ondas, esse ano tivemos boas ondas também todos os dias e só tenho que agradecer à Deus. Obrigado Jesus, minha família e a todos que torcem por mim. Eu me sinto muito abençoado agora por tudo que vem acontecendo comigo esse ano”.
RANKING ATUALIZADO
Filipe Toledo é o novo líder do ranking seguido de Julian Wilson, Gabriel Medina, Italo Ferreira, Jordy Smith, Wade Carmichael e Willian Cardoso.
DITADURA FACEBOOK
Para ganhar alguma grana, a WSL fechou um contrato com o
Facebook para fazer as transmissões pela controversa plataforma do igualmente
controverso Mark Zuckerberg. Ser obrigado a assistir o evento pelo facebook, a
gente até entende, mas transmissão monótona, sem opções de escolha, com um "chat chato" e com pouca
informação não deu para engolir. A reclamação foi mundial.
SHARK WEEK WSL
Em Margaret River dois ataques em praias próximas ao campeonato fizeram com que a diretoria da WSL cancelasse o evento. Em Jeffrey´s Bay o evento foi paralisado duas vezes por ter tubarão na área da competição, filmaram o bicho, esperaram ele passar e o evento voltou pra água. Imagine você como deve ter ficado feliz o Departamento de Turismo de Margaret River que pagou uma fortuna para que o evento promovesse a sua cidade...
Filipe Toledo foi o vencedor do Oi Rio Pro, a 4ª etapa do
circuito mundial da WSL. Com nítida superioridade, Filipinho venceu Wade Carmichael
na final por 17.10 a 8.00 e agora é o vice-líder do ranking.
Saquarema fez bonito na elite. As ondas foram boas e consistentes, o público foi quente e o
campeonato rolou com poucas interrupções. Quando a máquina de ondas de Saquarema liga o surf é intenso e desafiador. A praia de Itaúna proporcionou ótimas
direitas quando o evento rolou na Barrinha (que às vezes lembrou o Hawaii e às
vezes lembrou Kirra) e ótimas esquerdas quando o evento rolou no Point de
Itaúna. Ondas fortes, tubulares, desafiadoras, com boa formação, tudo bem
pertinho da praia. A melhor etapa do ano? Com certeza. Comparações com a piscina do Kelly ou com o Postinho é pura perda de tempo. Saquarema mostrou ao mundo seu potencial e mostrou para a
WSL Itaúna é o palco ideal para essa etapa.
Filipe Toledo fez um evento perfeito em Saquarema. Venceu todas as suas baterias, surfou sempre com performances de altíssimo nível, fez a única Nota 10 da competição e no último dia atropelou todo mundo que passou pela sua frente. Sua vitória foi indiscutível. A 2ª vitória dele no Brasil e a 6ª na
elite mundial. Julian Wilson continua na liderança do ranking e está a
apenas 1.034 pontos na frente de Filipe Toledo. Keremas vai pegar fogo!
QUARTAS
DE FINAL
Heat 1 - Filipe
Toledo (BRA)x Kolohe Andino (USA) – O primeiro
confronto do dia começou com ótimas ondas e com o Filipe Toledo ditando o ritmo
da competição. Em sua primeira onda Filipe entubou, manobrou
forte e marcou 7.67, mais que a somatória de Kolohe até o momento. A backup do Filipe foi uma onda mais curta que rendeu 6.77. As ondas pararam e foi essa segunda onda que deu a vitória ao Filipe Toledo (13.84 a
11.93). Semifinal para o brasileiro, 5º lugar para Kolohe Andino.
Heat 2 - Julian
Wilson (AUS)x Michael Rodrigues (BRA) – Encarar o
líder do ranking (e queridinho-mor da WSL) Julian Wilson nunca é uma tarefa fácil, especialmente
em direitas tubulares. Michael Rodrigues abriu a bateria com ondas regulares
(4.00 e 5.83) enquanto Julian começou errando tudo. Faltando 9 minutos para o término Julian entubou, finalizou com um aéreo e fez sua primeira
nota na bateria (7.33). Com uma onda fraca (3.83) Julian passou na frente do brasileiro. Michel
arriscou bastante nos aéreos, mas caiu demais. Julian venceu por 11.20 a 9.83 e o
brasileiro se despediu do evento.
Heat 3 - Gabriel
Medina (BRA)x Wade Carmichael (AUS) – Wade
Carmichael parecia muito a vontade nas direitas da Barrinha. Estava bem calmo e bem
sintonizado com os tubos. Medina passou a bateria apostando em aéreos que não saíram. Faltando 9 minutos para o término Wade Carmichael tinha duas notas na casa dos 5 pontos e Medina estava em combinação de ondas. Gabriel Medina, que insiste que não precisa de um técnico, foi eliminado do evento com a somatória de 3.63.
Heat 4 - Yago
Dora (BRA)x Ezekiel Lau (HAW) – Uma bateria com
poucas ondas boas e com quase todas as notas muito baixas. Zeke surfou
melhor, colocou uma nota 6.83 e nos últimos segundos de bateria fez mais 6.03.
Yago, o aniversariante do dia, acabou eliminado da competição somando 8.30.
SEMIFINAL
Heat 1 - Filipe
Toledo (BRA)x Julian Wilson (AUS) – Uma bateria
especialmente boa para os brasileiros. Primeiro porque Filipe Toledo vem
surfando muitíssimo mais que o líder do ranking em 2018; e depois porque é muito
legal quando o talento se sobressai a preferência dos juízes e vence de maneira incontestável. Filipe fez
sua primeira nota com uma onda forte (6.67). Logo em sequida ampliou a diferença
com uma ótima onda que começou com um tubo e finalizou com um aéreo rodando
(8.67). Na metade do confronto Julian já estava precisando de uma combinação de
ondas e assim foi até o final. Nos instantes finais da bateria
Filipe ainda pegou um ótimo tubo, marcou 7.70 e aumentou o tamanho da Kombi de
Julian.
Heat 2 - Wade
Carmichael (AUS) x Ezekiel
Lau (HAW) – Bateria com dois surfistas fortes, pesados
e com ótimo faro para os tubos. Wade Carmichael saiu na frente com duas ondas
regulares (7.17 e 6.00). Zeke começou com duas notas mais baixas (5.10 e
4.17). Wade, sem técnico, sem muita estrutura e com poucas pranchas no Brasil
venceu o havaiano e foi para sua primeira final na elite mundial.
FINAL
Filipe
Toledo (BRA)x Wade Carmichael (AUS) – Brasil x
Australia. Surf progressivo x Surf de borda. Acima de tudo, um duelo de
surfistas que não pareceram sentir qualquer pressão durante esse campeonato.
Filipe Toledo saiu na frente com um tubão. Marcou 9.93 e levantou a galera na
praia. Faltando 10
minutos para o termino da final Wade Carmichael precisava de uma combinação de
ondas. A situação do australiano piorou quando Filipinho pegou um tubo longo
em uma onda não muito grande e marcou mais 7.70. Foi a tampa no caixão do
australiano. Filipe Toledo campeão indiscutível em Saquarema.
RANKING ATUALIZADO (Ainda falta finalizar a 3ª etapa, cancelada por causa dos ataques de tubarão.)
1 Julian Wilson (AUS) 19.415 2
Filipe Toledo (BRA) 18.075 3
Italo Ferreira (BRA) 14.995 4
Gabriel Medina (BRA) 14.160
5 Wade Carmichael (AUS) 13.585
6 Ezekiel Lau (HAV) 11.670
7 Owen Wright (AUS) 11.575
7 Michel Bourez (PLF) 11.575 7
Michael Rodrigues (BRA) 11.575
10 Adrian Buchan (AUS) 11.550
11 Mick Fanning (AUS) 11.500
12 Griffin Colapinto (EUA) 9.835
13 Kolohe Andino (EUA) 9.740 14
Tomas Hermes (BRA) 8.590
15 Frederico Morais (POR) 8.495
16 Kanoa Igarashi (EUA) 8.240 17
Adriano de Souza (BRA) 7.450
17 Conner Coffin (EUA) 7.450
17 John John Florence (HAV) 7.450
17 Sebastian Zietz (HAV) 7.450
17 Jeremy Flores (FRA) 7.450
22 Patrick Gudauskas (EUA) 7.345 23
Yago Dora (BRA) 7.250 25
Willian Cardoso (BRA) 6.660 28
Ian Gouveia (BRA) 4.960 30
Jessé Mendes (BRA) 4.170
P.S. - O Maraca, de algum lugar, observava tudo com orgulho e com aquele sorriso largo.
Nesse final de semana, 5 e 6 de maio de 2018, o mundo enfim pode assistir ao vivo a elite mundial competindo na famosa e ainda pouco conhecida piscina de ondas do Kelly Slater, que fica em Lemoore, Califórnia. Um campeonato
de surf inédito, cheio de novidades, com novo formato e totalmente adaptado à
televisão e aos jogos olímpicos em uma
espécie de estadio de surf com uma onda que as vezes lembra Trestles e as vezes lembra Snapper. Nada mal para uma piscina com ondas artificiais.
Mesmo a milhares de quilometros de distancia a onda do Surf Ranch parece ser realmente incrível de se surfar. Tanto a esquerda quanto a
direita têm personalidades bemdiferentes, ambas tem sessões de manobra e de tubo e, literalmente, não tem um pingo d ´água
fora do lugar. Ondas rápidas, perfeitas, sempre pra frente e que testaram a sério as
habilidades e o preparo físico dos melhores surfistas do mundo.
O evento foi bom para os surfistas, bom para o público, bom para a mídia e especialmente bom para os negócios. Os figurões todos sorrindo, o surf sendo levado a um outro
patamar, capitalistamente falando, e o nosso esporte dando um grande passo em direção ao futuro estando a quase 200 km do mar. Pura ironia. O potencial econômico desse projeto, o
possível futuro olímpico, as oportunidades comerciais, a transformação de
surfistas em ídolos mundiais do mainstream. Há tantos fogos de artifício sobre
a piscina do Kelly que quase nos ofusca a vista.
FOUNDERS
O Founders´Cup é um evento em homenagem aos fundadores do surf profissional: Wayne Rabbit Bartholomew, Ian Cairns, Fred Hemmings, Randy Rarick, Mark Richards, Shaun Tomson e Peter Townend. Grandes nomes do nosso esporte e pessoas que plantaram as boas sementes do surf profissional Leia mais sobre eles aqui.
NOVIDADES
O Founders´ Cup trouxe muitas novidades ao surf competitivo. Pela primeira vez na história ninguém teve que se preocupar com as ondas, com swell, nem com disputa de onda, nem com interferências,
ou com tubarões, , nem com a correnteza, nem com day off, muito menos com o Kieren Perrow. Estava
tudo cirurgicamente limpo, planejado e organizado e pudemos enxergar, nitidamente e na prática, o que uma Olimpiada é capaz de fazer com um esporte.
A maior novidade desse evento foi o Formato. Uma competição entre times, cada time representando um país ou uma região do planeta e composto por 5 surfistas: Três homens e Duas mulheres.
Na primeira fase da competição acontecem 3 rodadas onde os times surfam juntos e ninguém surfa contra ninguém. Cada membro do grupo pega duas ondas, uma esquerda e uma direita, com pontuação até 10 pontos.
No final das 3 rodadas cada surfista soma sua melhor nota na esquerda e sua melhor nota na direita e os pontos contribuem para o total da equipe. Os 3 melhores times vão para a final, os dois piores acabam sendo eliminados.
Na Final os três times entram na água e cada membro surfa duas ondas, uma esquerda e uma direita, mas conta somente a melhor nota entre as duas ondas (independente do lado que foi surfada). São 5 rodadas de qualificação. As baterias 1, 2 e 3 dão 2 pontos para o 1º lugar, 1 ponto para o 2º lugar e 0 pontos para o 3º lugar. As baterias 4 (só para mulheres) e 5 (só para homens) dão 4 pontos para o 1º lugar, 1 ponto para o 2 lugar e 0 pontos para o 3º lugar. A equipe com maior número de pontos vence.
Uma das poucas coisas legais desse evento foi que o formato se aproximou mais das competições de skate. Cada surfista tinha direito a três
“voltas”, surfando uma esquerda e surfando a direita na
volta e já saia da água direto para a entrevista. Um
evento totalmente adaptado para a televisão e já voltado para o formato
olímpico.
Apesar de serem minoria no time, as meninas fizeram toda a diferença nos times e no evento. Se alguém ainda tinha dúvidas de que as meninas poderiam competir e vencer os meninos em condições de igualdade, essa dúvida caiu por terra. Ou por piscina. As meninas simplesmente detonaram com um surfe de altíssima qualidade.
A ONDA
A onda é incrivelmente longa, parece bem forte e é
absurdamente perfeita para uma piscina. A esquerda e a direita tem personalidade bem diferentes. Enquanto a esquerda lembra um pouco Trestles, a direita lembra um pouco Snapper Rocks. E ambas exigiram muita técnica e muito preparo físico dos surfistas. Ondas sempre rápidas, sempre pra
frente. Vacilou caiu. Não se pode colocar a culpa nas ondas. Definitivamente não. No primeiro round elas estavam rápidas demais, mas depois de corrigido o nivel de surf cresceu muito.
OS TIMES
O BRAZIL TEAM foi
com Adriano de Souza, Filipe Toledo, Gabriel Medina, Silvana Lima e Tainá
Hinckel. Um time com quatro grandes competidores e uma jovem promessa. Um
time jovem, talentoso, agressivo e com dois campeões mundiais.
O WORLD TEAM foi
com Bianca Buitendag (ZAF), Jordy Smith (ZAF), Kanoa Igarashi (JAP), Michel Bourez (PYF) e Paige Hareb (NZL).
Um time forte, muito competitivo, bastante consistente e com potencial para surpreender.
O AUSTRALIA TEAM foi
com uma verdadeira seleção australiana. Joel Parkinson, Matt Wilkinson, Mick Fanning,
Stephanie Gilmore e Tyler Wright. Quatro campeões mundiais (e 12 títulos
mundiais no curriculum). Um time muito forte e muito experiente.
O EUROPE TEAM foi
com Frankie Harrer (GER), Frederico Morais (POR), Jeremy Flores (FRA), Johanne Defay (FRA) e Leonardo
Fioravanti (ITA). Um time jovem e cheio de vontade.
O USA
TEAM foi com Carissa Moore, John John Florence, Kolohe Andino, Lakey Peterson e o dono da piscina, capitão
do time, astro do show e criador da onda Kelly Slater. Um time muito forte, com
três campeões mundiais, com 16 títulos mundiais no curriculum e com o dono dos
segredos da onda como capitão do time.
Foto: WSL / Cestari
O EVENTO
DIA 1
O Round 1 do evento foi chato, monótono e tedioso. Uma onda perfeita demais e rápida demais fez com que pouca gente conseguisse mostrar um surf de qualidade. Muita gente reclamou na internet e com razão. Esse campeonato começou tedioso e sem grandes emoções. O time americano surfou melhor nessa primeira rodada, o World Team ficou em 2º, a Australia ficou em 3º, Brasil ficou 4º lugar e a Europa em 5º.
No Round 2 a onda foi nitidamente ajustada e ficou bem melhor tanto para quem surfou como para quem assistiu. Filipe Toledo e Gabriel Medina simplesmente destruíram a onda com performances de cair o queixo. Filipinho fez o primeiro 10 da competição. E se valeu 10 na piscina Medina também deveria ter feito o seu. Medina entubou muito fundo, por muito tempo e finalizou sua onda com um rodeo clown. John John também mereceu destaque (mas não uma nota 9.8).
O primeiro dia foi finalizado com o time norte-americano liderando com 5 pontos de vantagem sobre a equipe australiana e com o Brasil na 4ª colocação.
DIA 2
No Round 3 os surfistas já estavam bem mais entrosados com a onda. Principalmente o time brasileiro. Filipe Toledo fez um 9.40 na esquerda, Mineiro fez um 8,67 também na esquerda e Medina um 9.07 na direita. A Tainá surfou com mais segurança e a Silvana Lima se adaptou bem as ondas do Surf Ranch.
Os times dos Estados Unidos e do Brasil finalizaram essa primeira fase em 1º
e 2º respectivamente.
Os times World e Australia empataram na terceira colocação e foram para o desempate. O time Mundo escolheu Page Hareb e
Jordy Smith e ambos surfaram muito bem. O time Australia escolheu
Matt Wilkinson e Tyler Wright, mas Wilko caiu logo no começo da onda, marcou pouco
mai de 4 pontos e ferrou com o sonho australiano. Tyler surfou muito bem mas
nem um 10 a salvaria e a Australia acabou eliminada da competição junto com o time europeu.
USA TEAM, BRAZIL TEAM e WORLD TEAM foram para as finais do
evento.
FINAL
Michel Bourez abriu a primeira bateria das finais surfando muito forte na esquerda, mas caiu no meio da onda e
marcou 5.17. Na direita Michel
surfou mal, fez duas manobras e caiu logo no inicio do peimeiro tubo e marcou 3.33.
Medina veio logo em seguida e fez literalmente uma volta
olímpica. Destruiu a esquerda e fez 9.07 e depois destruiu a direita e fez mais
9,67. Uma onda muito muito muito
forte e uma apresentação avassaladora.
John John fez a terceira apresentação da final, caiu de cara
na esquerda e fez 1.60. Na direita JJ começou bem mas caiu novamente no tubo e
marcou 3,90. Mais um péssimo campeonato para o campeão mundial em 2018.
Bianca Buitandag surfou um pouco lenta mas surfou bem na
esquerda e marcou 6.07. Na direita
acabou errando e caiu no tubo. Uma apresentação bem fraca da sul-africana.
Tainá Hinckel surfou com mais confiança hoje, fez a onda
toda como se estivesse surfando em casa, na Guarda do Embaú, e marcou 5.27. Na direita Tainá manobrou
bem forte, entubou duas vezes, manobrou e tentou entubar pela terceira vez, dessa vez
bem na portinha e marcou só 5.67.
Lakey Peterson surfou uma ótima esquerda, surfou com
estilo e com agressividade, fez um tubo muito curtinho e marcou 8.00. Na direita Lakey mais uma vez
surfou com excelência e fez 7.27.
Kanoa Igarashi caiu logo no início da esquerda e fez 2.00. Depois ele disse que foi para economizar as pernas para a direita. Na direita Kanoa surfou bem, entubou fundo, fez algumas manobras e finalizou
muito bem sua onda. Marcou 8,93.
Adriano de Souza forçou bem suas manobras na esquerda,
surfou sempre forte, mas burocrático, entubou fundo na esquerdinha e marcou 8.57. Definitivamente a melhor esquerda
da final até então. Na direita Mineiro surfou muito forte. Entubou fundo, mas
acabou caindo e só marcou 7.17.
Kolohe Andino fez tudo certinho na esquerda mas surfou com
muito menos pressão que os outros surfistas e marcou 7.77.
Na direita Kolohe arriscou um grande aéreo no meio da onda, caiu e marcou só 4.83.
Paige Hareb surfou meio burocrática na esquerda, caiu no
tubo e fez 6.07. Na direita surfou um pouco pior e marcou 3.23.
Silvana Lima surfou bem na esquerda, fez uma linha bem
agressiva mas não saiu do tubo no finalzinho da onda e marcou 6.13. Na direita
Silvana Lima surfou muito forte, entubou fundo, manobrou bem e finalizou com um
tubão. Uma onda espetacular da brasileira que marcou 9.17 (merecia mais).
Carissa Moore caiu na água logo na sequencia e surfou a
esquerda com excelência. Marcou 8.73. Na direita Carissa entubou raso em todas
as vezes, não manobrou tão forte, fez mais um tubo no final da onda, errou o aéreo de
finalização e marcou 8.77.
Jordy Smith fez uma esquerda burocrática, arriscou um rodeo
clown no final da onda e caiu e ganhou 7.50. Na direita Jordy desperdiçou sessão, não
entubou tão fundo, e deu um alley oop no final da onda que não foi tão limpo e marcou um
inacreditável 9.27.
Filipe não surfou muito bem na esquerda, que era o seu real objetivo e marcou 7.33. Na direita Filipe
caiu logo no inicio da onda, marcou só 4.93 e definitivamente acabou com as chances do Brasil de vencer essa etapa.
Kelly fechou a final quase que com chave-de-ouro. Surfou muito bem na esquerda e fez um 8 pontos e destruiu
a direita com a perfeição que só o criador da onda poderia fazer e ganhou 9 pontos, uma nota um pouco baixa para a performance do norte-americano que precisava de pelo menos meio ponto a mais. Com o 9 do Kelly o time mundo, formado por Bianca Buitendag (ZAF), Jordy Smith (ZAF), Kanoa Igarashi (JAP), Michel Bourez (PYF), Paige Hareb (NZL) venceu a competição graças aos pontos de Jordy Smith. O WORLD TEAM, que em momento nenhum encantou, venceu a competição.
O time brasileiro ficou com a 2ª colocação mas fez as duas maiores notas individuais da competição. Com a Nota 10 do evento, Filipe Toledo ficou com o prêmio Jeep Best Ride Award e leva pra casa um Jeep zerado e irado.
Foto: WSL / Cestari
O Fopunders´Cup entregou o que cumpriu. Um evento organizado, com excelentes condições de surf, formatou o evento para a televisão e para as Olimpíadas e mostrou que o surf definitivamente pode ira para esse caminho no futuro e nas Olimpíadas. O campeonato rodou mais redondo do que muita etapa da WSL. Creio que o desafio agora é deixar o evento mais dinâmico e com mais emoção. Não foram poucas as pessoas que acharam esse evento chato. Encontrar esse equilibrio entre informação, emoção e a performance dos atletas ainda precisa ser encontrado.
O JULGAMENTO
Ondas rigorosamente iguais Pelo
menos na teoria isso deixa o julgamento bem menos subjetivo, Estão todos surfando
para os mesmos lados, em ondas com a mesma velocidade, com o mesmo tamanho e em
plenas condições de igualdade. As ondas passar a ter peso nulo e a performance dos atletas fica mais nítida de ser julgada. Mas será que os juízes foram tão
imparciais? Algumas notas surpreenderam, outras causaram desconfiança. O fato de não haver um "heat analyzer" nem videos disponiveis criou um clima não muito transparente, vamos dizer assim.
Claro
que foi legal ver o Filipe Toledo ganhar uma Nota 10 surfando muito mais do que
todo mundo. Mas dar um 10 logo no primeiro dia de uma onda artificial quando
todos ainda tem muito o que evoluir nessas ondas teria sido uma boa decisão? O
surf apresentado pelo brasileiro foi realmente fodástico, mas penso que não se
pode dar uma nota 10 em uma piscina. Há muitos limites a serem ultrapassados
ainda. Dar um 10 assim no primeiro dia da piscina me deixou na dúvida se é um
cacoete ou se foi preguiça.
KELLYLÂNDIA
O 11 vezes campeão mundial construiu um mega parque aquático, criou a melhor piscina de ondas do mundo, esculpiu uma esquerda e uma direita perfeitas (e ainda vai fazer mais duas piscinas ao lado dessa) em Lemoore e ainda pode fazer com que sua piscina vire Arena Olímpica e mude definitivamente a cara do nosso esporte. Nem o Walt Disney foi tão ambicioso.
RESULTADOS
NOTAS
# O Kelly vem dizendo que não pode competir nos eventos da WSL por causa do pé quebrado, mas que vem surfando todo dia e acabou de mostrar que o problema está longe de ser o pé.
# Se o futuro do surf será nessas piscinas sugiro aos competidores
aumentar o treino de pernas. Não faltou gente perdendo sessão ou aliviando nas
manobras porque as pernas não respondiam mais.
# O Kelly treinou muito mais do que todo mundo, fez um evento na sua própria piscina, foi o capitão do time norte-americano, tocou com sua banda no intervalo e ainda quis que todos os surfistas surfassem com a sua prancha. Megalomania é pouco para o careca #Faltou o Heat Analyzer, faltaram notas ao vivo, faltou informação no site, faltaram videos com as ondas inteiras a disposição. Nem sempre menos é mais Tio Kelly. Um evento muito rico foi pobre em informação.
# O site BeachGrit disse que esse evento matou os campeonatos em Beach Break. É exagerado, mas é essa a impressão. Com ondas perfeitas 24 horas a disposição só faz evento em onda ruim quem quer.